domingo, 23 de maio de 2010

Rosa, doce e amarga


O melhor momento de minha vida
foi quando a senti nos meus braços
doce e versátil, segura e envolvente.
Me seduziu a tal ponto de que
mesmo não a amando profundamente,
me apaixonei pelo o que fez comigo.
Seu corpo de seda, Rosa, flor de pecado,
tem um gosto doce, mas amargo,
e o tom certo do vermelho dos seus lábios,
faz com que mesmo que não a ame,
você se torne única.

Eu tenho pena de você, Rosa,
seu corpo me fascina, seu jeito,
mas o seu veneno me mata.
Sua alma está ferida pela dor
causada pelos seus próprios espinhos.

Ah, doce Rosa, graça e pecado,
todos admiram a sua beleza,
mas quando irá parar de se auto-flagelar?
Quando acabará com o papel de vítima?
Sendo que a grande causadora do mal
é você, só você, amarga e seca Rosa.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Conto urbano


" Estava extremamente nervoso, era exatamente um dia antes de entregar meu relatório sobre pesquisas que andei fazendo para defender minha tese. Não sabia o que fazer, até que me lembrei que o bar em frente ao meu apartamento, no velho centro de São Paulo, ficava aberto a noite toda. Fui comprar uma tequila para me acalmar.
Por incrível que pareça, nunca fui muito de beber antes de me mudar para São Paulo, porém essa vida animalesca de competições e prazeres me levou ao grande desejo pelo álcool e me apaixonei por ele. Ficar bêbado é meu segundo grande prazer, depois do sexo, pois nada supera um par de seios dançantes e, bom, melhor encerrar por aqui.
Voltei para casa com uma garrafa e um maço de cigarros, e comecei a refletir sobre a minha vida, no qual achava (e acho) um lixo, mesmo tendo dinheiro para fazer todas as coisas inúteis, menos do ponto de vista nobre e intelectual, que quero. Após alguns copos e cigarros, me lembrei dos meus tempos de faculdade, das garotas com quem fiquei, mas não senti nada quanto a essas recordações. Nenhuma saudade ou afetividade, somente um sentimento de lembrança do prazer momentâneo naquele passado remoto, tal como um animal que se lembra do prazer de um agrado do dono. É, concluí que me sentia vazio, apesar de já saber que era um ser vazio. Precisava de alguma mulher para disfarçar isso naquela noite.
Saí, isso já era por volta das duas e meia da manhã, em busca de alguma nobre prestadora de serviços aos carentes de afeto. Andando, vejo uma garota pálida saíndo de um bar; cabelos negros, um bom corpo, rosto bonito mas, não me parecia uma prostituta. Seus olhos eram enigmáticos, me atraiam, então comecei a seguir seus passos. E como ela era rápida!
De repente ela olhou para trás e desapareceu. Eu, como uma pessoa normal, fiquei, para não dizer outra coisa, tremendo de medo com aquela cena. Como uma mulher daquelas pode sumir de repente? Só podia ter bebido muito!
Fui voltar para minha casa. Abri as portas, acendi as luzes e fui me deitar, porém para minha surpresa encontro aquela mesma mulher deitada em minha cama me seduzindo. Minha primeira reação foi sair correndo, lógico. mas havia algo naquela mulher de tão atraente, que não pensei duas vezes em ir me deitar com ela. Sexo com uma assombração? É realmente o que a tequila e a líbido não fazem, (e que pele gelada ela tinha!)
Quando acordei, estava só no meu colchão, nu e atrasado para o trabalho.Pensei que tudo isso deveria ser um sonho de bêbado, e até hoje considero essa hipótese. Me troquei correndo e fui tomar um cafézinho na padaria da esquina. Chegando lá, para a minha surpresa, estava aquela mesma mulher sentada, tomando um copo de leite mas, com um mero detalhe que me desesperou: estava com uma barriga de uma grávida de 9 meses. Não tive nenhuma opção, se não correr. Como poderia transar com um cadáver e ainda por cima essa carne sem alma ficar grávida de um filho meu? Será que era alma de alguma prostituta me assombrando pelas tantas que já fiquei em minha vida? Enfim, todo lugar que ía, aquela maldita aparecia e ainda gritando se eu não iria assumir aquele filho morto dentro daquele ventre pútrido! O pior é que eu já tentei matar essa peste, mas como nos filmes de terror que tanto gostava, ela não morria e nem o bebê. Nada funcionava.
Com esse relato, espero que compreendam o porquê de minha morte, pois 6 meses de perseguição por um cadáver esperando um bebê seu e exigindo que eu assumisse o filho é algo insuportável."

Esse texto foi uma psicografia de Joaquim de Oliveira Santos, 40 anos, para a família do interior de São Paulo que buscava explicações sobre sua atitude. Se matou no dia 10/05/2010. Sofria de alucinações agudas e tinha uma baita de uma depressão. Vivia sozinho, era alcóolatra, um "nerd" vagabundo, sarcástico, nunca amou, nunca teve filhos, era intelectual e mais um morador qualquer no centro de São Paulo.
É, não é todo mundo que aguenta essa selva de pedra.

sábado, 8 de maio de 2010

A roda da vida


O som doce das harpas
indica o nascimento,
que vem com o canto das lágrimas
e a primeira visão do mundo.
Ninguém se lembra mais de tal melodia,
e... como queria ouvir ela outra vez.

Quando a inocência se vai, aos poucos,
as cordas divinas transformam-se:
a forma, a cor e o pecado aparecem,
enquanto o violão toca arpejos insinuosos,
junto com movimentos curvilíneos e dançantes,
agressivos e ao mesmo tempo frágeis.
É a dança da vida, no qual dor e amor
se misturam formando um único ritmo.

E no final, no cansaço da noite,
os violinos obscuros sopram
nos meus fracos ouvidos dizendo
que a dança acabou
e não há mais o que fazer,
nem onde correr, ou ir atrás
do que não se fez.
Resta apenas apreciar a música,
a melancólica música do esquecimento,
no qual a cada nota desafinada
uma lágrima cai, não mais aquela
da vida, mas sim, fora de compasso,
a da morte.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ideologia, eu não quero uma


Ideologia é a salvação.
Idealizar é ser humano.
Abortar é pecado.
Tudo, TABU.
O que você na realidade pensa?

Dinheiro é a sensação.
Beleza é obrigação.
Virgindade é sagrada.
PERFEIÇÃO.
Ou você acha que é melhor do que eu?

Socialistas amam coca-cola.
Extremistas a diversão.
E, no auge dos quarenta,
ela tem o solo do sertão estampado na cara.
IDEOLOGIA.
Para que serve esse lixo?

Sexualidade reprimida.
Sexo exagerado.
Drogas como alívio.
ALIENAÇÃO.
Você acha mesmo que está livre disso?

Câncer de próstata.
HIV e ezquizofrenia.
DOR E HUMILHAÇÃO.
Para você tudo é fácil, não é?

Múltiplas personalidades.
E falta de personalidade.
A cópia sendo valorizada.
DIGNIDADE.
Você realmente tem isso?

sábado, 3 de abril de 2010

Será que há razão alguma em sofrer?


Não consigo viver neste mundo.
Não me sinto satisfeita alimentando um prazer.
Porque nós sofremos calados,
sentimos dor e a achamos indiferente.
Nós aprendemos a rir,
para esquecer o que sentimos.
E nós mentimos para evitar a dor.
Somos egoístas e egocêntricos.
Sempre que choramos de verdade,
choramos escondidos.
Não queremos nos mostrar fracos.
Achamos que somos melhores que os outros
e na realidade acreditamos nisso.
Mas tudo não passa de um sonho,
que nós mesmos criamos,
pois somos inutilmente iguais.
Nossa carne pode ser diferente,
nossos pensamentos podem ser diferentes,
nossas opiniões podem ser diferentes,
mas sentimos a mesma coisa.
A tristeza existe porque é universal.
O desejo, o amor, a dor;
são iguais para todos.
Mas porque existimos?
O que eu faço aqui?
Se em um acidente posso morrer
se posso nascer sem pernas
se posso ficar cega
se podem me assaltar
se podem me estuprar
se eu vivo para sentir dor?
É nesse momento que sinto
o som da serpente
pronta para dar o bote.
E ela me dá uma chance e me alerta
para que eu viva mais o presente,
e sinta alegrias em prazeres vazios.
Mas isso é algo impossível para mim,
pois o passado me atormenta
e não me conecto com o presente.
Me sobra apenas o doce futuro,
no qual me tenta, me seduz e,
quem sabe nem exista.
E isso me causa a grande dor,
o grande sofrimento da dúvida que me corrói.
Somos seres inúteis que sofrem e desaparecem
ou ainda há um sentido nisso,
no qual nós, meros frágeis humanos,
nascidos da pútrida lama, somos capazes de entender?

sábado, 27 de março de 2010

Desequilíbrio do Ego


O barulho da serpente me desperta,
me envolve e me abraça.
A incerteza emocional me dói.
É o momento no qual percebo
que a persona apaga meu ego.
Ou será que sou minha sombra?

Sonhos escondidos,
sentimentos afastados,
apenas para que evitar o pecado?
"Faça o que tu queres!"
"Há de ser tudo da lei!"
Sejas a besta, o pior entre os homens!
Encarne o que você é
e abandone sua persona,
assim você será odiado,
mas não será um ser divido.

Dos mais gloriosos profetas
aproveite principalmente a dor de suas ideias.
Religião é dogma,
pensamento é liberdade.
Sejas você, sejas podre!
Sinta seu corpo e manifeste sua alma.

E você não é homem, e você não é mulher.
Você criou sua alma anima.
Você criou sua alma animus.
Seja humano, seja essência.
Esqueça seus príncipos, seja o que é.

sábado, 6 de março de 2010

Síndrome do Pânico


Tempo sem controle,
corroendo minha pele,
dissecando minhas entranhas,
fazem com que meus nervos
me mandem sinais de ameaça
de que posso morrer amanhã,
posso morrer do nada,
e não fiz nada,
e que serei em segundos
apenas o nada.
Nada.

Minha vida ainda passa,
em algum lugar do universo;
aqui o tempo não é variável
somente a lembrança...
O filme roda mais uma vez:
motivo de reação,
pânico manifestado,
falso ataque do coração;
lembrete da morte,
da dor e incompetência...

E um segundo passa:
um homem bate a porta.
E um minuto passa:
um homem abre a porta.
E um segundo passa:
um homem me assusta.
E um hora passa:
paralisia ilusória.
Pânico da morte.
Um homem fala
e só eu escuto.

E a cada remédio,
um segundo a menos.
E a cada choro,
um segundo a menos.
E a cada ilusão,
uma hora a menos.
E a cada pensamento,
um momento perdido.
Somente há repetição,
o ponteiro não dorme,
o tempo não morre.
Nós morremos, aos poucos,
de um desespero discreto.