terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Tristeza


Como posso sentir a felicidade
se ela na verdade não existe?
Ela, como a chuva,
deixa seu rastro e some...

Eu amo a tristeza,
ela está fincada na minha carne:
não é sentimento, é constante.

(Maldita falta de complementação.)

Mas a cada passo que dou,
a tristeza me move,
pois ela faz parte do meu corpo
e da minha razão, forma meu ser.

Sumir, é todo ser humano queria sumir,
ser o que não é, ser o que será,
tudo isso se resume a tristeza.
Ela nos motiva, ela nos faz mudar,
ela nos deixa mais fortes.
Quem é fraco faz dela uma maldição,
sendo que deveríamos amar ela
e agradecer sua bondade,
pois eu, humana, sou insistente,
e ela, tristeza, me apunhala
e mata o que é ilusão:
meus doces sonhos apodrecem,
o frio corta por dentro,
a inutilidade me caracteriza,
mas minha dor me faz
continuar ser o que quero ser
e o que eu não sou.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Observador


Fumando seu cachimbo,
o velho observa:
a juventude se foi,
os tempos mudaram,
o desfeche está por vir.
No fim da tarde,
o velho observa:
o Sol morrer no horizonte
e pensar se é a última vez que o verá.
No fim da noite,
o velho observa:
já não é mais esperto como outrora.
Seus passos são limitados.
Seu corpo dói.
Não com a mesma intensidade,
enxerga o brilho das estrelas.
Analisando uma criança,
o velho observa
e lembra dos filhos que não foram adultos,
filhos que não existiram,
que viveram adultos,
que morreram adultos,
que a guerra levou.
Ele, velho, sem filhos, só.
Tocando uma flor,
o velho relembra
das mulheres que amou,
das mulheres que odiou,
das mulheres que o fizeram sofrer
daquelas que o fizeram acreditar
que o paraíso não era mentira.
No último instante,
no seu suspiro cansado,
o velho afirma:
que o que parecia tão grande,
na verdade é pequeno...
Os dias passam num piscar de olhos:
num momento, entre os campos,
criança correndo;
noutro adulto, pecando;
há pouco tempo velho, sábio incapacitado....
Ahhh, finalmente agora,
fechando os olhos para ver a verdade.