sábado, 8 de maio de 2010

A roda da vida


O som doce das harpas
indica o nascimento,
que vem com o canto das lágrimas
e a primeira visão do mundo.
Ninguém se lembra mais de tal melodia,
e... como queria ouvir ela outra vez.

Quando a inocência se vai, aos poucos,
as cordas divinas transformam-se:
a forma, a cor e o pecado aparecem,
enquanto o violão toca arpejos insinuosos,
junto com movimentos curvilíneos e dançantes,
agressivos e ao mesmo tempo frágeis.
É a dança da vida, no qual dor e amor
se misturam formando um único ritmo.

E no final, no cansaço da noite,
os violinos obscuros sopram
nos meus fracos ouvidos dizendo
que a dança acabou
e não há mais o que fazer,
nem onde correr, ou ir atrás
do que não se fez.
Resta apenas apreciar a música,
a melancólica música do esquecimento,
no qual a cada nota desafinada
uma lágrima cai, não mais aquela
da vida, mas sim, fora de compasso,
a da morte.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ideologia, eu não quero uma


Ideologia é a salvação.
Idealizar é ser humano.
Abortar é pecado.
Tudo, TABU.
O que você na realidade pensa?

Dinheiro é a sensação.
Beleza é obrigação.
Virgindade é sagrada.
PERFEIÇÃO.
Ou você acha que é melhor do que eu?

Socialistas amam coca-cola.
Extremistas a diversão.
E, no auge dos quarenta,
ela tem o solo do sertão estampado na cara.
IDEOLOGIA.
Para que serve esse lixo?

Sexualidade reprimida.
Sexo exagerado.
Drogas como alívio.
ALIENAÇÃO.
Você acha mesmo que está livre disso?

Câncer de próstata.
HIV e ezquizofrenia.
DOR E HUMILHAÇÃO.
Para você tudo é fácil, não é?

Múltiplas personalidades.
E falta de personalidade.
A cópia sendo valorizada.
DIGNIDADE.
Você realmente tem isso?

sábado, 3 de abril de 2010

Será que há razão alguma em sofrer?


Não consigo viver neste mundo.
Não me sinto satisfeita alimentando um prazer.
Porque nós sofremos calados,
sentimos dor e a achamos indiferente.
Nós aprendemos a rir,
para esquecer o que sentimos.
E nós mentimos para evitar a dor.
Somos egoístas e egocêntricos.
Sempre que choramos de verdade,
choramos escondidos.
Não queremos nos mostrar fracos.
Achamos que somos melhores que os outros
e na realidade acreditamos nisso.
Mas tudo não passa de um sonho,
que nós mesmos criamos,
pois somos inutilmente iguais.
Nossa carne pode ser diferente,
nossos pensamentos podem ser diferentes,
nossas opiniões podem ser diferentes,
mas sentimos a mesma coisa.
A tristeza existe porque é universal.
O desejo, o amor, a dor;
são iguais para todos.
Mas porque existimos?
O que eu faço aqui?
Se em um acidente posso morrer
se posso nascer sem pernas
se posso ficar cega
se podem me assaltar
se podem me estuprar
se eu vivo para sentir dor?
É nesse momento que sinto
o som da serpente
pronta para dar o bote.
E ela me dá uma chance e me alerta
para que eu viva mais o presente,
e sinta alegrias em prazeres vazios.
Mas isso é algo impossível para mim,
pois o passado me atormenta
e não me conecto com o presente.
Me sobra apenas o doce futuro,
no qual me tenta, me seduz e,
quem sabe nem exista.
E isso me causa a grande dor,
o grande sofrimento da dúvida que me corrói.
Somos seres inúteis que sofrem e desaparecem
ou ainda há um sentido nisso,
no qual nós, meros frágeis humanos,
nascidos da pútrida lama, somos capazes de entender?

sábado, 27 de março de 2010

Desequilíbrio do Ego


O barulho da serpente me desperta,
me envolve e me abraça.
A incerteza emocional me dói.
É o momento no qual percebo
que a persona apaga meu ego.
Ou será que sou minha sombra?

Sonhos escondidos,
sentimentos afastados,
apenas para que evitar o pecado?
"Faça o que tu queres!"
"Há de ser tudo da lei!"
Sejas a besta, o pior entre os homens!
Encarne o que você é
e abandone sua persona,
assim você será odiado,
mas não será um ser divido.

Dos mais gloriosos profetas
aproveite principalmente a dor de suas ideias.
Religião é dogma,
pensamento é liberdade.
Sejas você, sejas podre!
Sinta seu corpo e manifeste sua alma.

E você não é homem, e você não é mulher.
Você criou sua alma anima.
Você criou sua alma animus.
Seja humano, seja essência.
Esqueça seus príncipos, seja o que é.

sábado, 6 de março de 2010

Síndrome do Pânico


Tempo sem controle,
corroendo minha pele,
dissecando minhas entranhas,
fazem com que meus nervos
me mandem sinais de ameaça
de que posso morrer amanhã,
posso morrer do nada,
e não fiz nada,
e que serei em segundos
apenas o nada.
Nada.

Minha vida ainda passa,
em algum lugar do universo;
aqui o tempo não é variável
somente a lembrança...
O filme roda mais uma vez:
motivo de reação,
pânico manifestado,
falso ataque do coração;
lembrete da morte,
da dor e incompetência...

E um segundo passa:
um homem bate a porta.
E um minuto passa:
um homem abre a porta.
E um segundo passa:
um homem me assusta.
E um hora passa:
paralisia ilusória.
Pânico da morte.
Um homem fala
e só eu escuto.

E a cada remédio,
um segundo a menos.
E a cada choro,
um segundo a menos.
E a cada ilusão,
uma hora a menos.
E a cada pensamento,
um momento perdido.
Somente há repetição,
o ponteiro não dorme,
o tempo não morre.
Nós morremos, aos poucos,
de um desespero discreto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Tristeza


Como posso sentir a felicidade
se ela na verdade não existe?
Ela, como a chuva,
deixa seu rastro e some...

Eu amo a tristeza,
ela está fincada na minha carne:
não é sentimento, é constante.

(Maldita falta de complementação.)

Mas a cada passo que dou,
a tristeza me move,
pois ela faz parte do meu corpo
e da minha razão, forma meu ser.

Sumir, é todo ser humano queria sumir,
ser o que não é, ser o que será,
tudo isso se resume a tristeza.
Ela nos motiva, ela nos faz mudar,
ela nos deixa mais fortes.
Quem é fraco faz dela uma maldição,
sendo que deveríamos amar ela
e agradecer sua bondade,
pois eu, humana, sou insistente,
e ela, tristeza, me apunhala
e mata o que é ilusão:
meus doces sonhos apodrecem,
o frio corta por dentro,
a inutilidade me caracteriza,
mas minha dor me faz
continuar ser o que quero ser
e o que eu não sou.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Observador


Fumando seu cachimbo,
o velho observa:
a juventude se foi,
os tempos mudaram,
o desfeche está por vir.
No fim da tarde,
o velho observa:
o Sol morrer no horizonte
e pensar se é a última vez que o verá.
No fim da noite,
o velho observa:
já não é mais esperto como outrora.
Seus passos são limitados.
Seu corpo dói.
Não com a mesma intensidade,
enxerga o brilho das estrelas.
Analisando uma criança,
o velho observa
e lembra dos filhos que não foram adultos,
filhos que não existiram,
que viveram adultos,
que morreram adultos,
que a guerra levou.
Ele, velho, sem filhos, só.
Tocando uma flor,
o velho relembra
das mulheres que amou,
das mulheres que odiou,
das mulheres que o fizeram sofrer
daquelas que o fizeram acreditar
que o paraíso não era mentira.
No último instante,
no seu suspiro cansado,
o velho afirma:
que o que parecia tão grande,
na verdade é pequeno...
Os dias passam num piscar de olhos:
num momento, entre os campos,
criança correndo;
noutro adulto, pecando;
há pouco tempo velho, sábio incapacitado....
Ahhh, finalmente agora,
fechando os olhos para ver a verdade.